segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Filha única de mãe solteira" e outras expressões condenadas pela Defesa Civil

A expressão daí de cima me atormentou por anos na infância, mas hoje em dia eu uso numa boa. Ela serve pra indicar que se está fazendo referência a algo único e que, se for perdido, não haverá outro para pôr no lugar. Deve vir de um tempo em que ser mãe solteira era a máxima desgraça na vida de uma mulher que, traumatizada, tomaria tenência e nunca mais repetiria o feito de procriar sem ser com seu marido de papel passado. 

Agora vamos à razão do meu trauma: durante muitos e muitos anos, eu fui filha única de mãe solteira. O padre da paróquia perto lá de casa nem queria me batizar (sim, é sério). A lógica provavelmente era de que todos somos frutos do pecado - o maravilhoso, diga-se de passagem, pecado original -, mas ter um filho fora dos laços sagrados do matrimônio era certeza de ter comprado uma passagem só de ida pra morada do capeta e ser apontada na rua como biscate.

O castigo que eu devia pagar aliás, era correr o risco de ir parar no limbo caso eu cantasse pra subir ainda bebê. Minha salvação (até aquele momento) foi garantida por uma amiga da minha avó, que tinha um conchavo com o padre da outra paróquia. Depois daqueles longínquos 1985, muitas águas rolaram, a Igreja aboliu o limbo, meu irmão nasceu e a mulherada liberou a pomba, desencanando da ideia de que mulher tem que casar pra ser feliz e respeitada.

Assim como a supramencionada, existem muitas e muitas expressões que e a gente usa sem nem pensar se o sentido original ainda se aplica no contexto atual. "Matar dois coelhos com uma cajadada só", por exemplo. Em primeiro lugar, quem aí já viu um coelho solto e saltitante pelo campo (fazendinha da escola não vale)? Em segundo, entre todas as bugingangas que a gente costuma entulhar em casa, é muito pouco provável que haja um cajado. Em terceiro: em tempos de ecoconsciência feroz, quem vai cometer a barbaridade de assassinar um coelho (hello, Glenn Close em "Atração Fatal"), quanto mais dois, ainda mais à base de porrada?  

Uma amiga me lembrou de quando a gente diz que "caiu a ficha" para os momentos de epifania, que deve ter sido herdada dos tempos em que se usava ficha pra telefonar. Ou quando alguém está enchendo a nossa paciência e mandamos o chato "virar o disco", relembrando os tempos de vinil, vitrolas e agulhas. Tem gente que, quando quer fechar a conta do bar, pede pro garçom "passar a régua". Segundo a grande sábia Jaque, essa vem do tempo em que se cobrava a cerveja medindo a quantidade de líquido na garrafa.

Apesar de seus sentidos defasados, expressões como essas ganharam vida independente e não há quem não saiba exatamente o que cada uma quer dizer. Será que a gente precisa sempre atualizar a linguagem, pra que ela se adapte aos costumes contemporâneos? Ou a língua se modifica de  maneira aleatória, como que por vontade própria?

Acredito que expressões nascem e morrem espontaneamente, de acordo com o uso ou desuso. Pagando de CDF, lembra das aulas de genética na escola? Quando diziam que as mutações não são uma resposta às demandas do ambiente, mas que podem permanecer caso favoreçam a sobrevivência nele? Acho que é por aí. Mas até que ia ser bom se, graças à fotografia digital, não desse mais pra "queimar o filme", nem o nosso nem o de ninguém. Ó que maravilha que seria a nossa vida. 

3 comentários:

Moça do Fio disse...

Adoro estas expressões ;-))

O que não gosto, é das adaptações que fazem com: "cair a ficha", "virar o disco". Ué! Elas não ficaram famosas assim? Pois! Que seja mantida a originalidade.

Beijobeijo!!

Felipe Melo disse...

Imagina só essas gírias adaptadas para o futuro (distante ou não)? "Filho único de pai solteiro." hehehe! "Vira o blue-ray", "queimou o chip"... hehehe mas ainda fico com a adaptação clássica: "Matar dois coelhos com uma caixa-d'água só." ahuahuhuauaha

bjuss

Blog do Óbvio disse...

Acidentalmente caí no seu blog. Sabe, achei ótimo. Que cabeça legal você teve para montar esta exposição de expressões. Não importa se ficam fora de moda ou não. Dependem dos costumes regionais e frequência de uso. Adorei seu talento, menina. Beijocas prá vc.
Manoel - Blog do Óbvio.