terça-feira, 8 de julho de 2008

As ilhas afortunadas

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só mar.

(Fernando Pessoa)

2 comentários:

Winnee Louise disse...

igual ouvir barulho de mar em concha...



...o que me faz pensar que tem mar em todo lugar, basta nos silenciarmos.

Lua num instante comum disse...

O que eu acho mais legal desse texto é o modo como o Pessoa expressa a sensação de estar perto de algo inalcançável (por mais contraditório que pareça), a questão de sentir uma presença subjetiva, que parece brincar e se esconder da gente...
Me lembra saudade também.