domingo, 14 de outubro de 2007

Inferno astral

Posso até ser meio relapsa, mas tive boas razões para sumir nas últimas semanas. Há muito tempo, sei que tenho certa inclinação para o azar, mas nunca havia passado por uma conjunção de fenômenos estranhos como esta.
Dependendo do meu humor no dia, me imaginei como Jack Bauer, alguma santa com a vida bem atribulada ou personagem de uma sitcom em que acontecem coisas demais e bizarras demais em muito pouco tempo. Esse período esquisito envolveu dois suicídios, três colapsos nervosos, um terreiro de macumba, um incêncio, a descoberta do alcoolismo de alguém próximo, uma reconversão ao catolicismo e um pedido de noivado (não necessariamente nessa mesma ordem).
Alguns eventos não aconteceram diretamente comigo, mas todos me afetaram de maneira mais ou menos profunda. Minha criatividade foi para o limbo e não tem mais corretivo que esconda as minhas habituais olheiras. Assim que estiver mais segura de que essa maluquice toda acabou, eu volto.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Não seria da ignorância pedante?

Algumas frases e palavras parecem ter o poder de cobrir de inovação quem as profere. "Vivemos na era da informação", por exemplo. Junto com "meios técnico-científico-informacionais", é o bambambam das conversas de quem pretende se demonstrar antenado. Já escutei tanto que tenho tiques a cada vez que ouço de novo (apesar de que, vez ou outra, eu mesma caio nesse lugar-comum). Nesse caso, a afirmação já praticamente perdeu o significado e virou um comentário que a gente faz com relação à enorme quantidade de estímulos e produtos culturais aos quais estamos todos expostos.
Afinal, será que estamos tão bem informados assim? Tenho pensado muito a respeito. Que temos acesso a uma quantidade imensa de dados, não há duvida. Os poréns são que poucas são as fontes dignas de confiança, poucos os meios de buscá-las e pouco também é o tempo para assimilar toda essa informação. Ler um jornal todos os dias, trabalhar, estudar e dedicar algum tempo para a vida pessoal (namorar, ver os amigos, descansar) já é um desafio. Estou chegando à conclusão de que fazer isso tudo e se aprofundar em questões políticas, culturais, esportivas, científicas, tecnológicas etc é uma causa perdida. Como estudante de jornalismo, em teoria eu deveria saber quase tudo o que acontece, mas só se eu fosse o Quinto Elemento (lembra da cena em que a Milla Jovovich aprende História?).
Tenho mania de listas. Programação diária (inclusive contando o tempo que passo no metrô ou o que sobra no almoço), orçamento, filmes que quero ver, cursos interessantes, indicações de livros feitas pelos professores da faculdade. Quase todas resultam em nada (se bem que, há pouco tempo, me endividei na FNAC e na Saraiva pra conseguir comprar pelo menos alguns dos livros indicados, só Deus sabe quando vou conseguir lê-los). Da última vez em que tentei me programar para me manter informada, foi uma frustração só. Assinar um jornal, ler duas revistas semanais e duas mensais, ir ao cinema ou alugar um DVD pelo menos uma vez por semana e acompanhar mais a programação da TV revelou-se impossível. Sugiro um abaixo-assinado pedindo um dia com 36 horas (mas para quem?).

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Nem Freud, nem Chico Buarque, Nietsche ou o raio que o parta explica

O legal da atualidade é que todo mundo pode se sentir especial, né? Existem diversas patologias pós-modernas em que todos invariavelmente se encaixam. Ao mesmo tempo em que a sociedade vive sua era mais permissiva, cada ser humano agora se tornou portador de infindáveis fobias, déficits, psicoses, manias e distúrbios.
Cada hora leio alguma coisa diferente a respeito, designações em latim ou grego que eu definitivamente não vou gravar. A culpa, as frustrações, os altos e baixos do comportamento humano, o estado por vezes obsessivo que acompanha um grande interesse, a vontade de estar só, tudo é doença, ameaça à "felicidade integral". É claro que existe aquela história de que qualquer coisa em excesso é prejudicial e motivo de preocupação. Comer demais, de menos, gastar o que não se tem para alimentar a própria vaidade ou desprender-se totalmente dela é sinal de que algo não vai bem mentalmente. Mas sob que parâmetros, me diz?
Estranho também como existem os distúrbios da moda. Transtorno bipolar está super in, por exemplo. Uma amiga uma vez me contou sobre uma menina que fazia tipo dizendo ter "um déficit na química da felicidade". A criatura então "se isolava" para repousar na casa de Teresópolis, mas essa minha amiga sempre a via transitando toda serelepe com os amigos por aí.
Sabe-se lá o que realmente se passa com a tal, mas é só para ilustrar como a tristeza pode ser cult. Isso sem mencionar o fênomeno "emo".
Chega a ser curioso como somos pressionados a alcançar a felicidade suprema e como ironicamente é isso o que nos impele à melancolia. Ao mesmo tempo, nos sentimos frágeis, ansiosos e neuróticos por qualquer inquietação e acreditamos que deve haver uma solução na psiquiatria, algo que explique o que não possui uma explicação lógica e exatamente no momento em que nós, mimados, exigimos.

Prezado mané

Há algum tempo que vem me incomodando a babaquice de certos indivíduos. Com certeza isso acontece desde sempre, mas hoje eu quero falar sobre um caso especial de comportamento Butthead. Eu parto do princípio de que todo mundo merece um voto de confiança e simpatia, então quando conheço e convivo com alguém rio, conto piada, pergunto se a pessoa vai bem. Daí vez ou outra percebo um ogro se estufando todo, se sentindo o gostosão da propaganda do Avanço. Será que eu preciso berrar "não, eu não quero dar pra você" ?!?
What the fuck is your problem, buddy? Não dá pra entender se é auto-estima na sobrancelha do Cristo Redentor ou no fundo do poço da Samara! Por que algumas pessoas não conseguem ter a civilidade de concluir que alguém legal não está necessariamente dando mole, mas simplesmente sendo legal?
Às vezes o mané é tão, mas tão pouco dotado de semancol que mesmo com o meu total descaso insiste (há que se admirar a persistência dos manés) na atitude "Right said fred". Solução de choque: viro aquela namorada mala que só consegue criar frases como "meu namorado é tão fofo, fez sei lá o quê" ou construídas na primeira pessoa do plural, como se eu fosse parte de uma simbiose. Geralmente funciona.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

À beira de um ataque de nervos

Estava eu toda satisfeita voltando para casa depois do trabalho, no 220. Logo depois que sentei no banco perto da saída do ônibus (aquele mais alto, que é o meu preferido apesar dos sacolejos), uma moça sentou ao meu lado. Até aí tudo bem, pas des problèmes. Continuei lendo o meu livrinho tranqüilamente até que...clec. Franzo as sobrancelhas. A menina tinha estalado um dedo. Em seguida, vários clecs. A criatura estava estalando todos os dedos das mãos. E nada me irrita mais que barulho de dedos estalando. Em poucos segundos, eu já odiava a coitada da moça e fantasiava sobre maneiras de separar sua cabeça do corpo.
Pensando bem, sou altamente irritável. Uso "nada me irrita mais que" com infinitas combinações. Não suporto barulho de saco plástico no cinema, evangélicos que crêem na surdez divina, trapos me cantando na rua com criatividade zero, descobrir que não tem doce na geladeira no auge de uma crise de abstinência, grosserias em geral, mensagens de "a sua ligação é muito importante para nós/estaremos lhe atendendo (sic) em alguns instantes", vendedoras plantadas na entrada da cabine perguntando "ficou bom?", caneta falhando, fatal error, gente sem noção que dá pitaco na vida alheia sem ter intimidade.
Quando eu era mais nova, ficava no meu canto porque eu sempre fui meio bicho-do-mato. Agora, aguento até um certo nível (como aquele palhaço dos vídeos do you tube). Do limite para cima, já era. Uma vez eu fiquei discutindo com um indivíduo que estava pregando no meu ônibus. Não tenho preconceito contra religião nenhuma e o ser humano é livre para falar o que quiser. Mas ficar berrando num meio de transporte público em que nem se pode ouvir rádio ou fumar para evitar atrapalhar os outros passageiros é demais. Um mané ameaçou atirar em mim se eu não deixasse o cara pregar. No dia seguinte, contei para as minhas colegas do trabalho e todas elas me olharam como se eu fosse doida. Fiquei sem saber quem era o maluco da história: eu, o crente ou o que ameaçou me matar por causa do crente...
Mas eu também tenho um certo bom-senso (e quem acha que não tem?). Nunca iria chegar pra menina que estava se estalando no ônibus e falar "vou dizer onde você pode enfiar esses dedos". Até porque eu continuo sendo tímida, só reclamo depois de confirmar mentalmente que o barraco é justificável e vale o nervosismo que vai me causar. Isso ou até o meu oscilômetro chegar ao topo.