domingo, 23 de dezembro de 2007

Lugar de segunda

Ontem, estava eu conversando com a minha mãe sobre o plano de passar um tempo estudando espanhol no Chile. Eis que ela, indignada diz: "Ah, não, Luanda, junta dinheiro e vai pra um lugar legal!" (querendo dizer que eu devia era ir pra Europa). Subi nas tamancas: "Ué,mãe, só porque é América do Sul tem que ser uma bosta?" (é,a gente conversa nesse nível).
Tá certo que a Europa oferece a oportunidade de também conhecer países com outros idiomas nativos para praticar (inglês, francês, alemão e tcheco se eu soubesse falar alemão e tcheco) e é um continente que eu sou doida pra conhecer, mas há opções de lugares lindos e ricos culturalmente aqui pertinho. Além do Chile, há Argentina, Uruguai, Peru, Venezuela...
É um pensamento bem brasileiro esse de considerar os territórios da América do Sul (inclusive os do Brasil) como indignos de interesse, completamente desprovidos de validade, como se investir seu tempo em visitá-los fosse igual a ir pro Piscinão de Ramos podendo ir pra Ipanema.
Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Europa e algumas regiões da Ásia (se o viajante estiver numa fase"de-busca-espiritual" ou "querendo-me-encontrar"), tudo bem, mas colocar a mochila nas costas pra conhecer o Brasil ou os nossos vizinhos é quase risível. Por que quando o viajante ousa dizer "vou passar uns dias no Paraguai", recebe como resposta um "ah,tá" desanimado, mas se comentar que vai passar as férias na Califórnia, um "nossa, que máximo!"?
Temos que aprender a valorizar o que está à nossa volta. Pra que perder uma experiência que pode ser incrível, de conhecer gente legal, lugares bacanas, lidar com realidades sociais diferentes da nossa, estudar, aprender com uma cultura nova, eliminar isso tudo da nossa vida por um preconceito besta desses?

domingo, 16 de dezembro de 2007

Minha companhia? Eu mesma, ué!

Quando eu era adolescente, tinha agonia só de pensar em sair sozinha. Pra ir à padaria da esquina, tinha que ter uma amiga a tiracolo, como se só assim as experiências adiquirissem valor. Depois veio a fase de começar a namorar e, com ela, mais grude. Não dava pra escolher uma pasta de dente na farmácia sem chamar o dito-cujo.
Não estou dizendo que sair e se divertir acompanhada seja ruim (pelo contrário, é ótimo na maioria das vezes), o problema é quando a vontade de estar junto vira dependência. Quando você deixa de fazer algo que quer muito simplesmente por falta de companhia ou quando você não fica à vontade só.
Com o passar do tempo, fui aprendendo a saborear esses momentos all by myself para ter paz, refletir, agir de acordo com o meu tempo e me conhecer mais. Hoje, por exemplo, cheguei no Jardim Botânico (sozinha) às 8 da manhã e saí meio-dia. Caminhei, quase caí na lama, tentei interagir com os pavões (mission failed), observei os passantes, descansei deitada num banquinho ao lado do roseiral, li um pouco, ri da coroa jogando biscoito de polvilho para os pobres peixes do laguinho (ao lado da placa de "não alimente os animais"), me compadeci de uma debutante sendo fotografada (muito a contragosto, aliás) para um videobook do qual ela vai morrer de vergonha por toda a eternidade. Dolce far niente na veia.
Sair acompanhada é, quase sempre, uma delícia para compartilhar a vida com pessoas queridas (a rima brega não foi intencional), rir, debater etc. Estar só, como eu felizmente acabei descobrindo, também é, mas por outras razões. Ou seja, é apenas uma oportunidade diferente e igualmente rica.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Eco - Jorge Drexler

Esto que estás oyendo
ya no soy yo
es el eco, del eco, del eco de un sentimiento

su luz fugaz
alumbrando desde otro tiempo
una hoja lejana que lleva y que trae el viento

Yo, sin embargo,siento que estás aquí
desafiando las leyes del tiempo y de la distancia
Sutil, quizás,tan real como una fragancia
un brevísimo lapso de estado de gracia

Eco, eco
ocupando de a poco el espacio
de mi abrazo hueco

Esto que canto ahora,continuará
derivando latente en el éter, eternamente
inerte, así, a la espera de aquel oyente
que despierte a su eco de siglos de bella durmiente

Eco, eco
ocupando de a poco el espacio
de mi abrazo hueco

Esto que estás oyendoya no soy yo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Ressaca moral

É preciso fazer o que se precisa fazer. A percepção lógica das decisões a tomar, aquela lampadazinha que acende de repente na sua cabeça, nem sempre traz paz de espírito imediata. Muitas vezes, descobrir qual a atitude mais conveniente a tomar é apenas o início de um processo doloroso e difícil.
Incerteza, culpa, vazio e dor se misturam num insuportável nó na garganta que demora pra se desfazer. Tudo isso, parafraseando as meninas do 02 Neurônio, constitui a "ressaca moral". Só faltava existir um Engov que fizesse sumir ou pelo menos diminuísse todo esse desconforto.
Afinal, não parece justo: fazer o certo não é bom? Então por que o mal-estar?
Com o passar do tempo e o acumular das novidades na vida, o desconforto vai passando e o contentamento de ter feito o melhor (ou o que achamos ter sido o melhor) termina por nos conformar. Ou seja, a boa notícia é que uma hora passa.

domingo, 14 de outubro de 2007

Inferno astral

Posso até ser meio relapsa, mas tive boas razões para sumir nas últimas semanas. Há muito tempo, sei que tenho certa inclinação para o azar, mas nunca havia passado por uma conjunção de fenômenos estranhos como esta.
Dependendo do meu humor no dia, me imaginei como Jack Bauer, alguma santa com a vida bem atribulada ou personagem de uma sitcom em que acontecem coisas demais e bizarras demais em muito pouco tempo. Esse período esquisito envolveu dois suicídios, três colapsos nervosos, um terreiro de macumba, um incêncio, a descoberta do alcoolismo de alguém próximo, uma reconversão ao catolicismo e um pedido de noivado (não necessariamente nessa mesma ordem).
Alguns eventos não aconteceram diretamente comigo, mas todos me afetaram de maneira mais ou menos profunda. Minha criatividade foi para o limbo e não tem mais corretivo que esconda as minhas habituais olheiras. Assim que estiver mais segura de que essa maluquice toda acabou, eu volto.